Só o ministro Pazuello não consegue enxergar o colapso na rede de saúde

Editorial de O GLOBO (14/3/2021)

O Boletim do Observatório Covid-19, da Fiocruz, com dados da última segunda-feira, revela a situação dramática do sistema de saúde no país. Em 25 das 27 capitais, as UTIs estão com pelo menos 80% de ocupação. Em mais da metade, o percentual é superior a 90%. Só Belém (75%) e Maceió (73%) estavam abaixo do alerta crítico. Em Campo Grande e Porto Alegre, a taxa ultrapassa 100%, com macas nos corredores e cenas dantescas. A situação, dizem os pesquisadores, “aponta para a sobrecarga e mesmo o colapso de sistemas de saúde”.

Apesar das evidências, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, disse na quarta-feira, quando o país bateu recorde no número de mortes em 24 horas (2.349), que o sistema de saúde “não colapsou, nem vai colapsar”. Ainda que não quisesse considerar o diagnóstico da Fiocruz, bastaria a Pazuello atentar para o farto noticiário sobre a catástrofe que se dissemina pelo país. Ou ainda ir a qualquer hospital público e ouvir os relatos sobre o desespero de quem não consegue internação, mesmo com sintomas graves de Covid-19 .

Um festival de horrores se desenrola na rede de saúde. O afrouxamento das normas de isolamento e a circulação de novas variantes mais transmissíveis do Sars-CoV-2 fizeram explodir as internações. No SUS, onde o número de leitos de UTI foi reduzido drasticamente no fim do ano passado, porque Pazuello não renovou os contratos, o cenário é crítico. Há gente morrendo em filas de espera ou entubada dentro de ambulâncias estacionadas na porta dos hospitais. Que outro nome o ministro Pazuello daria a isso, senão colapso?

O governador do Piauí, Wellington Dias (PT), coordenador do Fórum Nacional de Governadores, repondeu a Pazuello: “Já estamos dentro de um colapso na rede nacional hospitalar. Não vamos para ele, já estamos. Tem, nesse instante, uma fila gigante. Estou falando aí de milhares mesmo. Algo como 30 mil, 40 mil pessoas em todas as filas hospitalares por falta de UTI e, em alguns lugares também, de leito clínico”.

Pazuello também não viu os estoques de oxigênio esvanecerem no auge da segunda onda em Manaus, levando pacientes à morte por asfixia, num dos capítulos mais dantescos no roteiro de terror que a pandemia tem imposto ao Brasil. No curso das investigações sobre sua participação no episódio, Pazuello não consegue dizer nem sequer a data em que foi informado sobre a iminência de ficar sem oxigênio.

Pouco mais de um ano depois do primeiro caso de Covid-19 no Brasil, o país vive o pior momento da pandemia. Somos o epicentro do vírus no mundo. O número de mortos já beira 275 mil, e não há hoje qualquer perspectiva de mudar a situação no curto prazo. O presidente Jair Bolsonaro continua sua cruzada contra o isolamento, uma das maneiras eficazes de conter o vírus. Chega a invocar um caso de suicídio para atacar o lockdown. O Brasil não sairá desse pântano sem medidas drásticas de restrição, aumento do número de leitos de UTI e vacinas. Mas como imaginar qualquer solução se o ministro da Saúde não sabe nem o que se passa diante de seus olhos?

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