Sun Tzu e nossa política (por Otávio Santana do Rêgo Barros)

É difícil compreender o comportamento de biruta em vento forte dos políticos, particularmente quando submetidos à pressão dos embates saudáveis da democracia, das fricções de ideias e dos limites fixados nos textos legais.

Daí resolvi compartilhar uma análise comparada de alguns trechos da obra de Sun Tzu, A Arte da Guerra (Bibliex-2003), com o clima político eleitoral de nosso país.

Alguns avaliam os escritos do general chinês como um compêndio de aforismos militares, que apenas essa classe deveria emular. Ledo engano! Vários estudiosos se inspiram nesses ensinamentos, adaptando-os para uma condução metódica de seus planos e ações.

Bom seria se a classe dirigente o tomasse como livro de cabeceira e assimilasse os ensinamentos do conduzir “soldados e petrechos”. Infelizmente, alguns gestores não têm o hábito da leitura e até jocosamente citam essa carência intelectual.

No capítulo sobre planejamento, há a transcrição de um diálogo entre Lorde Uxbridge e Duque de Wellington, às vésperas batalha de Waterloo. Uxbrigde preocupava-se com a possibilidade de assumir as tropas e desejava compreender os planos do chefe. Wellington retrucou: “quem ataca primeiro amanhã – eu ou Bonaparte? ‘Bonaparte’, respondeu Uxbrigde. Continuou o Duque, “Bonaparte não me fez saber os seus projetos, e uma vez que os meus planos dependem dos dele como quer que eu lhe possa dizer quais são os meus?”

Wellington estava diante de um robusto adversário, dos maiores daquele período. Sua postura não significou, entretanto, que abdicasse de uma preparação eficiente para fazer face a “La Grande Armée.”

Sua resposta evocava o princípio de guerra conhecido como flexibilidade. O general que vence uma batalha, a projeta antes em sua mente. O derrotado, desconhece o planejar.

O vencedor usa artimanhas. Adversário com temperamento exaltado, procura-se irritá-lo; simula-se fraqueza, ele se torna arrogante; se estiver inativo, fustigue-o; com forças coesas, procure separá-las; e quando estiver despreparado, ataque-o.

Proponho substituir no texto o termo general por político, e guerra, ataque ou semelhantes por campanha eleitoral.

O político é hábil na campanha eleitoral quando o oponente não souber o que defender ou não tiver capacidade para atacar.

Sun Tzu percebia que as pessoas simples intuíam as táticas, poucos enxergavam a estratégia da qual a vitória era extraída. Campanha eleitoral exige pensar em alto nível e executar em baixo nível, lá no suor do corpo a corpo.

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No embate de ideias, o melhor meio de debilitar o forte é eliminar um aliado fraco desse adversário. É sugar-lhe a seiva da coalização.

Como a rio modela o seu curso de acordo com o terreno, o político deve planejar a campanha segundo o adversário que se lhe depara. A sorte nem sempre lhe bafejará.

Quando o rival parecer estar prestes a sucumbir, mas permanece quieto, demonstra confiança na eficácia da sua posição. Se persiste afastado e tenta provocar a refrega, está ansioso para que o contrário se exponha.

Palavras conciliatórias são artimanhas que antecedem o avançar.  Emprego de linguagem chula e violenta, simulando energia e força política, significam uma fraqueza inconfessável.

Eis mais um conselho de Sun Tzu que se ajusta na batalha do voto e do poder.

– se me perguntassem sobre como lutar contra um inimigo poderoso, preparado e em ponto de atacar eu diria: comece por tomar algo de grande valor ao adversário, ele se submeterá à sua vontade.

O que é tão importante ao adversário político e que lhe toca mais fundo? Poder, dinheiro, vaidade, laços afetivos. Eis o centro de gravidade da disputa. Todo esforço e energia nesse ponto.

Políticos se enfrentam anos a fio, lutando por uma vitória ser obtida às vezes num só dia. Assim, permanecer na placidez da ignorância sobre a situação do adversário é desinteligência. Leiam avidamente o estratega chinês.

Ao concluir, relembro frase do ex-presidente americano Barack Obama, “a ignorância na política ou na vida não é uma virtude.”

Paz e Bem!

Otávio Santana do Rêgo Barros é general do Exército e ex-porta-voz da presidência da República. Escreve aqui às quartas-feiras 

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