Távola redonda, um exemplo (por Otávio Santana do Rêgo Barros)

Dez horas da manhã, em uma segunda-feira de ressaca, após um clássico do campeonato carioca com a vitória por 1 x 0 do Fluminense diante do Vasco. Dois sujeitos bem humorados se encontram na porta de um boteco, ali no Largo do Machado, famoso reduto da boemia carioca, e transcorre o seguinte diálogo:

– e aí cara, tudo bem?

– tudo bem, e você?

– levando né.

– pois é, tá difícil mesmo.

– e a família?

– tudo bem, e a tua?

– foi todo mundo embora. Não dava mais.

– que pena!

– domingo tem mengão, vamos torcer?

– vamos. Já vou cara, até mais.

Um outro sujeito sentado solitário em uma mesa próxima da entrada, já tendo tomado umas e outras, e para esticar papo, perguntou:

– conhece ele de onde?

– não conheço.

– não conhece?

– foi só para conversar. É assim mesmo gente boa. Ele não prestou atenção em nada do que eu disse, e eu não tenho a menor ideia do que ele me respondeu.

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Essa típica conversa de botequim revela o espírito bonachão e irreverente do carioca. Ocorria diversas vezes, com os mais diversos personagens. Hoje não mais. O coronavírus fechou bares, lanchonetes, restaurantes, agora a conversa é por aplicativo. Ainda bem que eles existem e funcionam.

Poderíamos usá-la como paródia da amadora comunicação dos nossos governantes, no contexto de combate à pandemia do coronavírus.

As autoridades se habituaram a falar impensadamente qualquer coisa, com intenção de preencher o espaço narrativo na imprensa e nas mídias sociais. Elas estão na defensiva por total inabilidade na condução desta batalha.

A sociedade, por seu lado, entende qualquer outra coisa, desde que essa outra coisa não a prejudique e não a faça alterar os seus costumes diários. Ela é refém desses desatinos.

Nessa comunicação desestruturada, emitem-se (publicam-se) declarações pela manhã, para logo desfazê-las à tarde. Liga-se o celular em qualquer lugar, até mesmo dentro de carros em movimento, para transmitir um “laive”, justificando a repentina mudança de postura. Quanto mais rápido falar, mais rápido se é replicado pelos asseclas de plantão.

No dia seguinte, diante das manchetes dos jornais e comentários encolerizados no Twiter, Facebook ou WhatsApp com críticas aos desacertos, escala-se um culpado, afirmando, sem ruborizar, que foram distorcidos os comunicados.

Enquanto isso, números assustadores sobre o aumento de casos e de perdas em vidas humanas são expostos diariamente. Não se percebe vontade em alguns responsáveis de inserir-se no problema dos afetados. Chamamos a isso falta de empatia.

Tampouco se identifica a busca por soluções de consenso, discutidas em uma távola redonda, onde seriam depositadas as espadas da discórdia políticas, e se buscaria imediata ação pelo troca de opiniões e experiências pregressas.

Seria pedir-se demais?

A areia da ampulheta do tempo quase preencheu o bojo inferior. Hipnotizados, todos a olham fixamente. A ansiedade tomou corpo no corpo da sociedade.

Infelizmente, o trono de “alguns” encontra-se virado de costas para o desafio hercúleo que se faz presente. E o detentor, da janela de seu castelo, só tem olhos para a estrada que conduz à arena dos embates eleitorais futuros.

Repiquem os sinos, toquem os clarins, batam tambores, despertem todos deste pesadelo. O caminho está ficando intransitável com os corpos de vítimas da pandemia. Breve as palavras irrefletidas de nada servirão em defesa dos que as evocam.

Os caminhantes, mesmo os mais humildes, se negarão a trilhar a vereda, exigindo mais segurança, serenidade e estabilidade emocional dos gestores.

E se eles permanecerem insensíveis? Justiça neles (civil, penal, eleitoral, política)! É preciso fazê-los revelar-se fora de suas zonas de conforto.

Paz e Bem!

 

Otávio Santana do Rêgo Barros é general do Exército e ex-porta-voz da presidência da República. Escreve aqui às quartas-feiras 

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