Tereza Cristina, a chanceler informal de Bolsonaro

Com o desgaste do ministro de Relações Exteriores Ernesto Araújo, um dos principais integrantes da ala ideológica do governo Bolsonaro, a ministra da Agricultura Tereza Cristina passou, nos últimos meses, a fazer as vezes de chanceler informal do bolsonarismo e destravar negociações importantes, como a importação de insumos para a produção de vacinas contra a Covid-19.

Era 11 de dezembro quando a diplomacia oficial brasileira, capitaneada por Araújo, fez a primeira gestão mais incisiva para liberar a importação da China de um lote de matéria-prima para a produção de vacinas no Brasil. Porém, entraves burocráticos na máquina estatal chinesa e os petardos do chanceler e do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que insinuaram que Pequim faria espionagem por meio da tecnologia 5G e já haviam culpado os asiáticos pela pandemia do novo coronavírus, mantinham a base dos imunizantes parada e sem previsão concreta de desembarcar no Brasil.

Diante do risco de insumos importantes para a produção de doses anti-Covid não chegarem ao país, o presidente foi aconselhado a nomear uma espécie de diplomacia paralela, avessa a questões ideológicas, para reconstruir pontes com autoridades que se reportavam a Pequim. Auxiliares de Bolsonaro consideravam que, naquele momento, a batalha política já havia sido perdida para o governador de São Paulo João Doria (PSDB), que conseguira fechar primeiro com a China uma parceria para a produção da CoronaVac pelo Instituto Butantan. Tereza Cristina foi designada pelo presidente para utilizar os canais comerciais que detém com os asiáticos para destravar gargalos relacionados às vacinas.

Ela negociou diretamente com o embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, e utilizou contatos com empresas de trading para tentar desfazer mal-entendidos e garantir a liberação de lotes do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) para o Brasil. Era a hora de o pragmatismo das relações comerciais e a convicção de que países não têm amigos, e sim interesses, suplantarem estridências dos políticos que ao longo de 2020 entoaram discursos anti-China. O resultado foi positivo e a ministra da Agricultura ganhou importantes tentos no governo. Agora seu nome é cotado para substituir o também ideológico Ricardo Salles no Ministério do Meio Ambiente. A ideia é usar a expertise de Tereza e seu poder de negociação para tentar reabilitar a desgastada imagem brasileira no exterior quando o assunto é proteção de florestas.

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