Uma clara advertência (por Leonardo Barreto)

Em novo movimento de gestão de crise, o presidente Jair Bolsonaro busca uma reaproximação com lideranças políticas. Um segundo “pacto nacional” foi anunciado na forma de um comitê que contará com os presidentes do Legislativo e o controle preventivo de constitucionalidade do Supremo Tribunal Federal.

Desde que recorreu ao STF para impedir que governadores decretassem lockdowns, e ao Ministério Público Federal para cobrar prestação de contas dos recursos repassados para combate à pandemia, o presidente Bolsonaro transmitiu o recado de que dobraria a aposta hostil, na linha da melhor defesa é o ataque.

Muitos sinais de fumaça foram vistos no final de semana. Além da morte de colegas, os parlamentares estão quase absolutamente concentrados nos danos da Covid 19 nas suas bases, onde são demandados para dar socorro à população, desde a busca de leitos até sepultamentos. Por isso, a tática do constrangimento aplicada pelo governo federal, tentando eximir-se de responsabilidade na tragédia, surtiu efeito contrário e agravou a crise.

Os parlamentares que cumprem sua parte na aliança selada com Bolsonaro Bolsonaro, entregando uma pauta legislativa densa e difícil entre fevereiro e março, mostraram irritação e houve risco real de ruptura. A sensação é de que se quebrou a confiança no acordo recém-construído entre governo e Centrão que começara na sucessão das presidências da Câmara e Senado.

Ao fazer um discurso contundente, o presidente da Câmara, Arthur Lira, um dos principais avalistas da aliança, deu um recado claro: “estou apertando aqui um sinal amarelo”. Foi uma espécie de pré- ultimato a Bolsonaro. Mas haverá mudança? E, mais importante, há tempo para mudar?

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Se o presidente tem instinto de sobrevivência, palavra usada por Lira, é provável que procure ajustar discurso e comportamento, mas sempre nos seus termos.

Nas falas em rede nacional de rádio e televisão na terça (23), e na reunião da quarta (24), Bolsonaro trai a tentativa de se apropriar da campanha da vacinação, dela tornando-se protagonista, passando a borracha no passado recente de negação da doença, seus efeitos e protocolos de prevenção – além de combate à própria vacina.

O timing está atrasado pela longa e tenaz oposição do presidente às medidas de combate ao vírus, o que o coloca agora no estágio da redução de danos. Mas é bastante improvável que recupere a confiança do sistema político e reverta o declínio de sua popularidade no curto prazo.

Por isso, o reequilíbrio virá da liderança do Legislativo, inclusive com maior controle do orçamento, e um presidente da República cada vez mais vulnerável. Nesse contexto, o impeachment permanece como uma espada de Dâmocles sobre o presidente.

Leonardo Barreto escreve no Capital Político. Doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) com especialização em comportamento eleitoral e instituições governamentais. Foi professor substituto da UnB e já coordenou mais de 50 estudos com parlamentares, jornalistas e autoridades do Executivo, nos planos federal, municipal e estadual. Ao longo de sua atuação profissional, acumulou profundo conhecimento empírico e científico sobre a lógica da ação política.

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