Unidos do Sacarnaval (por Gustavo Krause)

Surpresa para o carnaval de 2021: estreia da escola de samba a “Unidos do Sacarnaval”. Seria a celebração apoteótica dos inimigos visíveis e invisíveis da Força-Tarefa Lava Jato. Bicheiro e maconha saíram de moda; agora são Excelências, pó e a guimba do pó, o crack, barato do pobre

Tudo pronto. O samba-enredo, “Me dá um dinheiro aí”, foi inspirado na inocente marchinha, sucesso em vários carnavais.

Pronto e organizado: o líder da Comissão de Frente, o campeoníssimo Sérgio Cabral; a primeira alegoria, o Abre Alas, luxuosa reprodução do Jardim de Ali Babá; Mestre-Sala e Porta-Bandeiras, Eduardo Cunha e Nelma Kodama; duas alas de garantistas, Dura Lex, vestidas de togas e capuz: a dos advogados garantistas dos honorários e a dos magistrados garantistas das conveniências; a numerosa ala Caixa dois não é propina seria a última alegoria. E o puxador do samba-enredo, o barítono Roberto Jeferson.

Ai a pandemia jogou água no chope da festa. Não faz mal. Cada um comemora à sua maneira. Mas nada será como antes, desde que a sociedade se mantenha vigilante e a força da consórcio dinheiro, poder e corrupção seja enfrentado pelo vigor da institucionalidade.

A força-tarefa não terminou em pizza. Os resultados concretos confirmam: mais de 500 pessoas denunciadas ao longo da operação, 1.450 mandados de busca e apreensão, 211 de condução coercitiva, 132 de prisão preventiva, 163 de prisão temporária e 6 de prisão em flagrante, a soma das penas de 278 condenados (174 nomes) chega a 2.611 anos, adicionada a recuperação de mais de 4 bilhões de reais decorrentes de 209 acordos de colaboração e 17 acordos de leniência.

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Porém, o histórico legado foi o duro golpe na cultura da impunidade protetora dos ricos e poderosos. E a derrapagem do Juiz Sérgio Moro foi acreditar na bandeira eleitoral de institucionalizar um projeto anticrime capaz de enfrentar o processo endêmico e sistêmico do crime organizado que ameaça a paz social. As questões processuais serão julgadas, espero, de acordo com o legal e justo. O lixo da História aguarda o submundo.

Com a leitura sequencial de Lava Jato, de Vladimir Netto, Morte a Vossa Excelência sobre a experiência da operação “Mãos Limpas” por Alexander Stille e A organização, de Malu Gaspar, a conclusão é de que a corrupção não dorme.

Atualíssima, A organização expõe a relação patrimonialista, promíscua, bandida, tão enraizada que nem o auxílio financeiro para salvar vidas escapou do hediondo crime do colarinho branco.

 

 Gustavo Krause foi ministro da Fazenda e governador de Pernambuco 

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