Voto decisivo em 2022 vai ser por eliminação ou por convicção?

Depois de ter estremecido com o discurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e até ter tomado algumas atitudes pró-vacina, o presidente Jair Bolsonaro voltou à sua essência. Vai mesmo continuar investindo em posições extremadas e de conflitos com possíveis adversários nas eleições de 2022, como mostrou nesse final de semana, quando postou em suas redes sociais vídeos das manifestações ocorridas no domingo, 14, dos seus aliados mais radicais. Em uma das publicações, pessoas aparecem indo até a casa do governador de São Paulo, João Dória, para pedir sua renúncia, dizendo que isso a imprensa não dá.

Além do ataque à Dória, os manifestantes tomaram decisões que chegaram a ser cruéis. No Espírito Santo, um grupo foi até a casa da mãe do governador Renato Casagrande, uma idosa de 88 anos com diversas comorbidades, gritar contra as últimas medidas restritivas às escolas e ao comércio devido à pandemia.

Enquanto a extrema-direita se manifesta a favor de Bolsonaro e contra o distanciamento social, mesmo em meio aos recordes de mortes, vários outros movimentos mostram que o centro tenta procurar seu espaço, com o ex-presidente Lula no páreo. Se radicalizar o discurso, o petista fechará seu acordo só com a esquerda, como que sempre fez. O que muda esse quadro é o petista caminhar para o centro.

Dentro dos partidos considerados de centro, o governador paulista João Dória disse que pode ser candidato à reeleição, o que foi visto como um sinal de que ele pode sair da disputa presidencial, abrindo espaço para negociação. Ao mesmo tempo, o governador gaúcho Eduardo Leite tem se posicionado em favor de um debate sobre candidaturas dentro do partido. Também existem correntes do PSDB paulista que apoiam o retorno de Geraldo Alckmin como candidato a governador. Se Doria seguir para presidente, terá que disputar as primárias do partido com Eduardo Leite. Se for para a reeleição, pode ter que disputar a indicação com Alckmin. Claro que tudo isso pode mudar, se houver uma ampla negociação por uma frente democrática para enfrentar Bolsonaro.

Mas a lista continua. O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta também disse que o DEM não precisa ser cabeça de chapa. O ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia se encaminha para ir para o MDB, embora com um discurso de oposição a Bolsonaro. De qualquer maneira, sem um nome forte e de consenso entre várias forças no centro, a tendência será a polarização.

A grande questão é que com a extrema-direita no poder, já se sabe o que a gestão Bolsonaro é capaz de entregar ao Brasil. Dos dois lados há problemas que afastam os eleitores mais racionais, sem paixões, e que esperam uma terceira via que seja capaz de renovar a política brasileira. O momento é de incerteza. Até agora, Bolsonaro estava sozinho fazendo campanha. A viabilidade da candidatura Lula fez todos os outros partidos pensarem em como vão se posicionar. 

Não há dois polos equivalentes. O Bolsonarismo é tão extremado que considerou Ludhmila Hajjar, apoiada pelo deputado Arthur Lira, do PP, ao ministério da Saúde, “petista”, apenas por ter tratado, como médica, a ex-presidente Dilma. A médica já atendeu várias pessoas do atual governo. 

O PT fez sinais para o centro. A polarização sempre ocorre em segundo turno. O importante é que, para o primeiro turno, seria fundamental haver um caminho alternativo para que os problemas do país sejam discutidos com alguma racionalidade. 

Há quem não queira nem o atual governo, nem a volta a um governo do PT. Se as outras formas não se organizarem, o país pode continuar prisioneiro de uma eleição, onde o voto decisivo vai ser por eliminação, e não por convicção. Nesse cenário, 2022 será uma disputa de rejeições, mais do que escolhas de caminhos para o país.

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