Veja 5 fatores que explicam o resultado do PIB e 5 freios para 2022 e 2023

Os números da economia brasileira no 1º trimestre vieram positivos, com o Produto Interno Bruto (PIB) crescendo acima do inicialmente projetado por analistas e pelo mercado financeiro – mas dentro das projeções mais recentes.

Dados divulgados nesta quinta-feira (2) pelo IBGE mostraram que o PIB do Brasil cresceu 1% de janeiro a março deste ano, na comparação com os três meses anteriores.

A normalização mais rápida do setor de serviços – o mais atingido pela pandemia e de maior peso no PIB – e indicadores positivos nos últimos meses têm levado a uma revisão para cima das projeções para a alta do PIB no ano, ainda que a perspectiva seja de desaceleração da economia no 2º semestre e de piora da atividade em 2023 em meio à inflação persistente, juros em alta e maior incerteza global e doméstica.
Até março, a expectativa do mercado era de uma alta de 0,5% em 2022. Agora, boa parte dos economistas e analistas apontam para um avanço do PIB acima de 1% no ano, enquanto o governo mantém a projeção de alta de 1,5%. Por outro lado, parte das previsões para 2023 têm sido revistas para baixo, com algumas casas apontando para um crescimento até mesmo abaixo de 0,50%.

Veja abaixo 5 fatores que explicam a melhora nas projeções para o PIB:

Surpresas positivas nos indicadores econômicos
Normalização mais rápida de serviços
Salto nos preços das commodities
Pacote de bondades do governo
Melhora nos índices de confiança e de emprego
E 5 riscos de freio ao crescimento da economia:

Inflação persistente e juros em alta
Desaceleração da economia mundial
Incerteza eleitoral e política
Inadimplência em alta e corrosão da renda
Diluição do impulso da recuperação de serviços
1. Surpresas positivas nos indicadores econômicos
Os resultados do comércio e do setor de serviços surpreenderam no 1º trimestre. O volume de serviços prestados no Brasil alcançou em março o maior nível desde maio de 2015, superando em 7,2% o patamar pré-pandemia. Já as vendas do comércio tiveram a primeira alta depois de dois trimestres de queda, rodando 2,6% acima do volume pré-Covid.

Indicadores antecedentes apontam também para um bom começo de 2º trimestre. Termômetro da Boa Vista que acompanha o desempenho das vendas no varejo no país aponta uma alta de 1,1% na passagem de março para abril.

A indústria, por sua vez, segue prejudicada pelos gargalos nas cadeias globais de fornecedores e problemas associados à falta de insumos. Mas, mesmo operando ainda abaixo do patamar de antes do início da pandemia, a produção manufatureira cresceu no 1º trimestre, interrompendo uma sequência de 4 quedas trimestrais seguidas.

“O crescimento vem surpreendendo positivamente no Brasil. Não foi extraordinário, embora certamente melhor do que as estimativas do mercado até o 3° trimestre, quando o PIB teve um desempenho ligeiramente negativo e alguns começaram a esperar uma recessão começar”, afirmou o banco UBS, ao atualizar sua projeção para o crescimento da economia brasileira para alta de 1,1% em 2022.

2. Normalização mais rápida de serviços
O pandemia em situação mais controlada e o fim da maioria das restrições contribuíram para uma normalização mais rápida do setor de serviços e avanço da recuperação de atividades presenciais como turismo e lazer, cuja demanda foi fortemente reprimida nos últimos dois anos.

“Do lado da oferta, a maior surpresa foi em serviços, que é o setor que responde pela maior parte do PIB”, afirma Rodrigo Nishida, economista da LCA Consultores, que até o início de maio projetava uma alta de 0,7% no PIB em 2022, e agora já vê um crescimento de pelo menos 1,2%.
A recuperação mais rápida do setor coincide com o avanço da vacinação contra a Covid-19 e a redução do número de casos graves no país.

Além do efeito da maior circulação da população, os serviços também têm sido menos castigados pela aceleração da inflação do que outros setores. Em 12 meses até abril, o ritmo de reajuste nos preços dos serviços acumula alta de 6,94%, pouco mais da metade da inflação oficial do país.

3. Salto nos preços das commodities
A expressiva valorização dos preços internacionais das commodities energéticas, metálicas e agrícolas após a invasão da Ucrânia pela Rússia favoreceu a balança comercial brasileira e, por consequência, a economia brasileira no começo de 2022.

Em março, o país registrou superávit recorde de US$ 7,4 bilhões. Foi o maior saldo comercial, para meses de março, desde o início da série histórica em 1989.

A guerra na Ucrânia e as sanções impostas à Rússia tem restringido e encarecido as importações de alguns produtos como fertilizantes e trigo, mas, ao mesmo tempo, fez disparar o preço de itens como petróleo, soja e minério de ferro — beneficiando exportadores e atraindo recursos ao país. Vale lembrar que as commodities explicam mais de 60% das exportações brasileiras.

“Temos um ano começando relativamente bem, com a saída da pandemia melhorando os serviços e as commodities ajudando por conta dos preços. Isso ajuda muito na composição do PIB do ano, que vai acabar tendo um resultado melhor do que se imaginava”, afirma Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, que passou a projetar um crescimento próximo de 1% em 2022, ante estimativa anterior de 0,5%.

4. Pacote de bondades do governo
A entrada de mais dinheiro na economia, com medidas como a liberação de saques extraordinários de recursos do FGTS pelos trabalhadores e a antecipação do 13º salário para aposentados e pensionistas, têm ajudado também a dar algum estímulo para o consumo, apesar da inadimplência e endividamento em nível recorde.

O pacote de bondades adotado pelo presidente Jair Bolsonaro em busca da reeleição inclui também iniciativas como a ampliação da redução do Imposto de Produtos Industrializados (IPI) e outros cortes de impostos, além de medidas que começaram a vigorar no começo do ano como a criação do “vale gás” e a introdução do Auxílio-Brasil, com valor de benefício maior que o do antigo Bolsa Família.

A XP estima que a renda real disponível às famílias subiu cerca de 4% na virada do último trimestre de 2021 para o primeiro de 2022 devido à recuperação do emprego “tanto das categorias formais quanto informais” e ao aumento das transferências governamentais de renda para famílias de baixa renda.

A instituição elevou sua projeção para o crescimento da economia de 0,8% para 1,6% em 2022, mas espera um “desempenho tímido” em 2023, com alta de 0,5%, citando “ventos contrários relevantes para o PIB do Brasil nos próximos trimestres”.

5. Melhora nos índices de confiança e de emprego
A confiança dos empresários subiu pelo 3º mês consecutivo em maio e atingiu o maior nível desde outubro do ano passado, segundo termômetro da FGV – indicando uma evolução favorável das expectativas e da economia no segundo trimestre.

Já a confiança do consumidor segue oscilando em patamares baixos, mas alcançou em maio o maior patamar desde maio de 2020, segundo indicador da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

A despeito da inflação nas alturas, que tem corroído o poder de compra, o mercado de trabalho continua se recuperando.

O país fechou o 1º trimestre ainda registrando 11,3 milhões de desempregados, mas a taxa de desemprego caiu para 10,5% – o menor nível desde 2016 – e a população ocupada no país alcançou 96,5 milhões, o maior da série histórica do IBGE.

“O mercado de trabalho brasileiro deverá permanecer em rota de recuperação nos próximos meses, ainda que gradualmente perdendo fôlego”, avaliou Rodolfo Margato, economista da XP, que projeta taxa média anual de desemprego de 10,6% em 2022, vinda de 13,2% em 2021.
A seguir, veja 5 riscos de freio para o crescimento do PIB

1. Inflação persistente e juros em alta
A pressão inflacionária e os juros básicos da economia ainda em alta são apontados como os principais freios para o potencial de crescimento da economia.

A inflação nas alturas corrói o poder de compra e faz com que as famílias tenham que cortar o orçamento doméstico para controlar os gastos – o que significa menos potencial de consumo.

Já são 9 meses seguidos com a inflação anual rodando acima dos dois dígitos. O Banco Central já admitiu que a inflação deve superar pelo 2º ano seguido o teto da meta, e analistas já projetam um IPCA próximo de 9% em 2022.

Com a inflação acima de 12% no acumulado em 12 meses aumentam as apostas de ao menos mais duas elevações no atual ciclo de aperto monetário, com a Selic podendo chegar a 13,75% ao ano, o que tende a manter o Brasil na liderança do ranking mundial de juros reais.

“É uma taxa extremamente elevada. Já está encarecendo o custo de crédito e, por consequência a inadimplência também cresce”, afirma Vale, destacando que os efeitos dos juros mais altos tendem a ser mais visíveis no ano que vem.
O encarecimento do crédito impacta tanto os investimentos das empresas como o consumo de bens duráveis como imóveis, veículos e eletrodomésticos.

2. Desaceleração da economia mundial
A piora do cenário internacional com a desaceleração da economia chinesa e retração do PIB em países como EUA , Japão e França tem pesado também na percepção de riscos para os próximos trimestres.

O temor de uma recessão global está associado aos impactos da guerra na Ucrânia, a uma série de lockdowns em resposta ao coronavírus na China e pela expectativa de elevação dos juros na maioria das principais economias para conter a inflação.

A disparada nos preços da energia após as sanções impostas à Rússia tem pesado sobre a Alemanha, a maior economia da Europa, e diversos países estão sendo afetados pela falta de fertilizantes, de alimentos e de petróleo e gás.

“O cenário internacional está se desenhando mais difícil, com menos crescimento e com condições monetárias mais apertadas (juros mais altos) e menor liquidez. A Covid continua causando problemas na China, o que gera reflexos nas cadeias globais de insumos, e continuidade do conflito na Ucrânia deixa as commodities caras, o que é mais pressão inflacionária e pode levar a mais juros ou juros mais elevados por mais tempo”, alerta Nishida.
O Banco Mundial cortou no mês passado sua previsão de crescimento global para este ano em quase um ponto percentual, para 3,2%.

O UBS, por exemplo, reduziu sua projeção de crescimento do PIB da China em 2022 de 4,2% para 3%, e passou a prever alta de apenas 0,1% da economia brasileira no 2º trimestre e retração de -1,3% no 3º trimestre.

3. Incerteza eleitoral e política
O calendário eleitoral e a maior tensão política são outros fatores de risco para um segundo semestre mais fraco.

A incerteza sobre quem estará no comando da Presidência a partir de 2023 e sobre a composição do Congresso Nacional tende a impor cautela adicional no consumo e no ambiente de negócios, podendo também frear ou adiar decisões de investimentos.

“O segundo semestre será em compasso de espera total por conta da eleição, e 2023 tende a ter um crescimento menor que o desse ano. Tem todo o efeito da alta de juros que vai estar bastante consolidado, a situação dos Estados Unidos, que estão caminhando para ter de fato uma recessão, e a questão política. A gente não sabe qual vai ser o final da eleição e que tipo de polarização vamos ter”, afirma Vale.
A percepção de maior incerteza já provoca reflexos nas oscilações do câmbio nas projeções para a cotação do dólar frente ao real.

A despeito do alívio recente na cotação do dólar, analistas estimam que a moeda norte-americana ainda pode chegar ao fim de 2022 cotada por até R$ 5,45 por conta das eleições e das preocupações com a situação das contas do governo e o elevado endividamento do setor púbico.

4. Inadimplência em alta e corrosão da renda
O endividamento e a inadimplência das famílias em nível recorde e os receios sobre o emprego e renda são outros freios relevantes para o PIB.

Segundo a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), 4 em cada 10 brasileiros adultos (38,45%) estavam inadimplentes e negativados em abril – o equivalente a 61,94 milhões de pessoas. Já levantamento da Serasa Experian mostrou que 6,1 milhões de empresas estavam inadimplentes em abril, o maior número em dois anos.

A renda média do trabalhador segue 7,9% menor que o de 1 ano atrás, mesmo com o aumento do número de ocupados no país e queda do desemprego, segundo mostrou nesta semana o IBGE.

Ou seja, as novas vagas que estão sendo criadas no país estão pagando menos, e aqueles que estão empregados não estão conseguindo reajustes com reposição da inflação.

“Os dados da ocupação até tem surpreendido positivamente mas, quando se olha os dados de renda, ainda temos valores bem negativos. São dois efeitos agindo: um é a inflação que corrói o poder de compra dos salários e o outro é a composição do emprego, com a geração de vagas de remuneração mais baixa”, destaca o economista da LCA.

5. Diluição do impulso da recuperação de serviços
O setor de serviços tende a continuar ajudando no crescimento do PIB, mas esse impulso tende a se diluir gradualmente com a reabertura completa da economia e retomada do patamar de atividade pré-pandemia entre todos os segmentos.

Ou seja, o forte crescimento nos primeiros meses do ano foram mais o reflexo de uma normalização mais rápida do setor de serviços do que um ganho de tração da atividade econômica do país.

Das grandes atividades do setor, somente os serviços prestados às famílias e o segmento de turismo ainda seguem em patamares abaixo do nível pré-pandemia.

“É um movimento que uma hora tende a acabar. A lógica por trás dessas revisões para cima em 2022 e para baixo em 2023 é que muitos dos aspectos que estão influenciando positivamente nesse ano vão sair de cena”, afirma Nishida.

“Estamos falando de 2023 crescendo 1%, ou talvez abaixo de 1%. Ou seja, vamos continuar com aquele crescimento perto de 1% que tem nos acompanhado há um bom tempo, o que denota problemas estruturais e a necessidade de reformas”, acrescenta.

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