Os 94 anos do voto feminino no Brasil representam mais do que um marco histórico. Simbolizam uma transformação profunda na democracia brasileira e na forma como as mulheres passaram a ocupar espaços de decisão. Ao longo deste artigo, analisamos o significado dessa conquista, os avanços na participação feminina na política, os desafios ainda persistentes e o que precisa ser feito para fortalecer a representatividade das mulheres nos próximos anos.
O direito ao voto feminino foi oficialmente instituído em 1932, durante o governo de Getúlio Vargas, por meio do Código Eleitoral. Até então, as mulheres brasileiras estavam excluídas da participação formal nas decisões políticas do país. A conquista foi resultado de décadas de mobilização liderada por figuras como Bertha Lutz, que defendia a igualdade de direitos e a ampliação da cidadania feminina.
Desde então, o Brasil avançou significativamente. Mulheres passaram a votar, a se candidatar e, progressivamente, a ocupar cargos estratégicos. A eleição de Dilma Rousseff à Presidência da República simbolizou um ponto de inflexão na história política nacional. No entanto, apesar desses marcos expressivos, a presença feminina nos espaços de poder ainda está aquém do ideal.
Os dados mais recentes indicam que o número de mulheres eleitas para o Congresso Nacional continua abaixo da média global. Embora haja crescimento gradual, a política brasileira ainda é predominantemente masculina. Essa discrepância evidencia que o direito ao voto foi apenas o primeiro passo de uma longa jornada rumo à igualdade efetiva de representação.
Celebrar 94 anos do voto feminino exige reflexão crítica. Não se trata apenas de recordar um evento histórico, mas de avaliar o impacto real dessa conquista na estrutura política do país. A ampliação do eleitorado feminino transformou campanhas eleitorais, pautas legislativas e o debate público. Temas como licença-maternidade, combate à violência doméstica e igualdade salarial ganharam maior visibilidade justamente porque mais mulheres passaram a votar e a ocupar cargos políticos.
Entretanto, a presença feminina na política enfrenta obstáculos estruturais. Barreiras culturais, financiamento desigual de campanhas e resistência partidária ainda dificultam a consolidação de uma representatividade proporcional. Mesmo com políticas de cotas para candidaturas femininas, muitas mulheres enfrentam candidaturas simbólicas, com pouco apoio financeiro ou tempo de propaganda reduzido.
O fortalecimento da democracia depende da pluralidade de vozes. Quando mulheres participam das decisões políticas, há maior diversidade de perspectivas, o que contribui para políticas públicas mais inclusivas. Estudos internacionais mostram que parlamentos com maior presença feminina tendem a priorizar áreas como educação, saúde e proteção social, impactando diretamente a qualidade de vida da população.
Além disso, o debate sobre o voto feminino também dialoga com a necessidade de ampliar a participação política em níveis locais. Câmaras municipais e assembleias legislativas ainda registram índices baixos de representação feminina. Incentivar a formação política, garantir financiamento justo e promover ambientes partidários mais inclusivos são medidas essenciais para mudar esse cenário.
Outro ponto relevante é o papel da educação política. A consciência sobre o significado do voto feminino precisa ser constantemente reforçada, principalmente entre as novas gerações. O direito conquistado há 94 anos não pode ser visto como algo natural ou permanente. Ele é fruto de mobilização e permanece dependente da vigilância democrática.
A participação das mulheres na política brasileira também precisa ser analisada sob a ótica interseccional. Mulheres negras, indígenas e de baixa renda enfrentam desafios adicionais. A igualdade formal não elimina desigualdades históricas que se reproduzem no sistema político. Portanto, ampliar o debate sobre diversidade dentro da representatividade feminina é fundamental para que o voto feminino cumpra plenamente sua função transformadora.
Ao longo dessas quase dez décadas e meia, o Brasil acumulou avanços importantes, mas a consolidação de uma democracia verdadeiramente representativa ainda exige esforço contínuo. A lembrança dos 94 anos do voto feminino deve servir como impulso para fortalecer políticas públicas que ampliem a presença das mulheres nos espaços de poder e garantam condições reais de competitividade eleitoral.
A trajetória do voto feminino no Brasil demonstra que direitos políticos não são concessões espontâneas, mas conquistas resultantes de mobilização social. A história iniciada em 1932 continua sendo escrita diariamente por mulheres que disputam eleições, participam de movimentos sociais e ocupam posições estratégicas na administração pública.
O futuro da política brasileira passa, inevitavelmente, pela ampliação da participação feminina. Quanto maior for a presença das mulheres nas decisões, mais equilibrada e representativa será a democracia. Celebrar essa data é reconhecer o passado, avaliar o presente e, sobretudo, assumir o compromisso de avançar ainda mais na construção de um cenário político mais justo e inclusivo.
Autor: Diego Velázquez