Felipe Rassi aborda os critérios ESG como elemento que passou a influenciar, de maneira cada vez mais visível, a recuperação de ativos corporativos em operações complexas. Em um mercado que observa não apenas a existência do crédito, mas também o ambiente em que ele será executado, fatores ligados à governança, ao risco socioambiental e à reputação da empresa devedora deixaram de ocupar espaço periférico e passaram a interferir na leitura de valor do ativo.
Em créditos estressados, esse movimento se torna ainda mais relevante porque a recuperabilidade não depende somente de garantias formais ou de documentação robusta. A forma como a empresa se organiza, administra riscos e responde a contingências também pesa na avaliação do credor, do investidor e do mercado secundário.
Continue a leitura para descobrir por que a recuperação de ativos corporativos já não pode ser dissociada de temas que antes eram tratados como acessórios!
O que os critérios ESG agregam à análise de ativos corporativos?
Os critérios ESG introduzem uma camada adicional de leitura sobre a qualidade do ativo e do ambiente em que ele está inserido. Em vez de limitar a análise ao contrato, à garantia e ao valor nominal da obrigação, o mercado passa a considerar também a consistência da governança, a exposição socioambiental da companhia e o impacto reputacional de determinadas práticas empresariais. Isso não substitui a análise jurídica tradicional, mas altera a forma como o risco é percebido.
Na perspectiva de Felipe Rassi, esse tipo de filtro é especialmente importante em estruturas corporativas mais sofisticadas, nas quais a recuperação do crédito pode depender da continuidade da operação, da preservação de contratos relevantes e da confiança institucional da contraparte. Quando a empresa apresenta governança frágil, passivos ambientais sensíveis ou histórico de falhas de compliance, o crédito tende a carregar uma assimetria maior de risco, o que repercute na sua circulação.
Em que medida o ESG interfere na recuperabilidade do crédito?
A influência aparece quando o risco não está apenas no inadimplemento, mas no ambiente empresarial que o cerca. Uma companhia pode ter ativos, contratos e fluxo operacional, mas ainda assim enfrentar perda de valor econômico caso sua estrutura esteja exposta a contingências regulatórias, disputas reputacionais ou problemas de governança que dificultem o enforcement e afetem a percepção do mercado. Nesse cenário, a recuperação deixa de ser um cálculo puramente patrimonial.

Felipe Rassi explicita que, em operações com ativos estressados, o mercado observa se a empresa devedora preserva governança mínima, capacidade de resposta institucional e coerência na administração do passivo. Se esses elementos estiverem ausentes, o credor ou investidor tende a incorporar maior cautela na precificação. A presença de critérios ESG, portanto, não atua como selo abstrato de qualidade, mas como vetor que ajuda a dimensionar a estabilidade do ambiente de cobrança.
Como isso repercute na precificação e na circulação do ativo?
Quando o crédito está ligado a uma empresa cercada por passivos socioambientais relevantes ou por governança opaca, a liquidez tende a sofrer. Isso ocorre porque o investidor não avalia apenas a chance formal de cobrança, mas o conjunto de fatores que pode prolongar litígios, comprometer ativos estratégicos ou reduzir a utilidade econômica da recuperação. Assim, o ESG passa a integrar a arquitetura de risco da operação.
Felipe Rassi destaca que essa leitura influencia tanto o deságio aplicado na negociação quanto o apetite de compradores especializados. Em certos casos, ativos ligados a companhias com estrutura mais transparente e governança mais consistente conseguem circular com menos ruído, ainda que a inadimplência exista. Já em contextos marcados por opacidade decisória e contingências sensíveis, o crédito tende a demandar maior prêmio de risco para se tornar atraente.
Quais cautelas ajudam a incorporar esse fator de forma técnica?
A incorporação de critérios ESG à recuperação de ativos exige método. Não se trata de importar linguagem de mercado sem adaptação jurídica, mas de compreender como governança, responsabilidade socioambiental e conduta empresarial afetam a recuperabilidade concreta do crédito. Isso envolve due diligence, leitura da estrutura societária, mapeamento de contingências e avaliação do impacto desses fatores na estratégia de cobrança.
Ao examinar esse tema, Felipe Rassi conclui que o credor precisa ir além da análise documental tradicional. Quanto melhor for o diagnóstico do ambiente corporativo, mais precisa tende a ser a leitura de risco e mais consistente se torna a estratégia de recuperação. Nessa lógica, os critérios ESG deixam de ser camada decorativa e passam a funcionar como ferramenta útil para entender valor, liquidez e segurança em ativos corporativos complexos.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez