Fachin decidiu que investigação sobre financiamento do filme “Dark Horse” e ligação com o Banco Master ficará com o ministro, após pedido da PGR.
O Supremo Tribunal Federal entrou, nas últimas semanas, em uma nova etapa de um caso que já vinha sendo acompanhado de perto pelo meio político: a investigação batizada de “Dark Horse”. O presidente da Corte, ministro Edson Fachin, decidiu que caberá ao ministro André Mendonça relatar o pedido de apuração contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A decisão encerra, ao menos por ora, uma disputa sobre qual ministro ficaria responsável pelo caso, tema que gerou reação até da defesa do próprio senador. O episódio ganhou força depois que uma reportagem revelou que Flávio teria pedido ao banqueiro Daniel Vorcaro recursos milionários para financiar uma produção cinematográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, seu pai. A partir daí, um deputado apresentou uma notícia-crime pedindo que a Justiça investigasse a origem e o destino desse dinheiro.
Como o caso chegou às mãos de Mendonça
A notícia-crime que deu origem à investigação foi apresentada pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ). Segundo o pedido, existiria uma ligação entre o financiamento do filme pelo Banco Master, a relação de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro e a permanência do deputado cassado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, que teria sido sustentada, em parte, com recursos vindos da mesma produção. Inicialmente, o caso foi distribuído ao ministro Alexandre de Moraes, já que Lindbergh pedia a ampliação do inquérito que apura a conduta de Eduardo Bolsonaro, do qual Moraes é relator. A discussão sobre quem deveria conduzir a apuração, porém, precisou passar pelo crivo do presidente da Corte, já que envolvia uma possível redistribuição do processo entre gabinetes.
Antes de decidir, Fachin pediu a manifestação da Procuradoria-Geral da República. O órgão, em parecer apresentado em uma segunda-feira, defendeu que o caso fosse redistribuído para André Mendonça, argumentando que os fatos narrados se conectam mais diretamente à investigação sobre o Banco Master e sobre Daniel Vorcaro, da qual Mendonça já era relator por prevenção. Fachin acolheu esse entendimento e determinou a mudança, afirmando que as circunstâncias justificavam a redistribuição dos autos ao colega. Com isso, Mendonça passou a acumular tanto a apuração sobre o banqueiro quanto a que envolve o senador Flávio Bolsonaro, o que, na avaliação de operadores do direito ouvidos pela imprensa, tende a dar mais coerência à condução das duas frentes de investigação, que compartilham boa parte dos fatos e das provas já reunidas.
Vale lembrar que a defesa de Flávio Bolsonaro chegou a se movimentar em uma frente paralela, pedindo ao presidente do STF que um caso distinto, relacionado a emendas parlamentares supostamente usadas para beneficiar a mesma produção cinematográfica, também fosse tirado da relatoria do ministro Flávio Dino e encaminhado a Mendonça. Segundo apurações publicadas, essa investigação apura se recursos de emendas destinados a uma organização não governamental teriam, na prática, ajudado a bancar o filme. A defesa argumenta que esse caso guarda relação direta com o processo do Banco Master, motivo pelo qual deveria seguir a mesma lógica de prevenção adotada na decisão de Fachin.
O que está em jogo para Flávio Bolsonaro
Do ponto de vista jurídico, a centralização das investigações em torno de um único relator tende a acelerar a produção de provas e a análise de eventuais conexões entre os fatos apurados. Isso significa que qualquer decisão tomada em uma das frentes, como quebras de sigilo ou depoimentos, poderá ser aproveitada nas demais, o que dá ao ministro Mendonça uma visão mais ampla do conjunto de indícios reunidos até aqui. Para o senador, o cenário representa ao mesmo tempo um risco e uma oportunidade: risco porque a concentração das apurações pode facilitar o avanço da investigação, e oportunidade porque a defesa poderá lidar com um único interlocutor no tribunal, evitando decisões contraditórias entre gabinetes diferentes.
O caso ocorre em um momento politicamente sensível, já que o Brasil se aproxima do calendário eleitoral de 2026, e qualquer desdobramento envolvendo a família Bolsonaro tende a repercutir tanto no debate público quanto nas articulações partidárias em curso. Aliados do senador têm defendido publicamente que a investigação seria motivada por perseguição política, enquanto parlamentares da oposição ao PL sustentam que o caso precisa ser esclarecido justamente pela quantia envolvida e pela ligação com um banco que já enfrenta outros problemas regulatórios. Até o momento, não há data definida para que o ministro Mendonça apresente decisões de mérito sobre os pedidos de investigação, e o processo corre em sigilo, o que limita o acesso a detalhes mais específicos sobre o andamento das apurações.
Repercussão e próximos passos
A escolha do relator não encerra o caso, apenas define o rito que ele seguirá dentro do STF. Os próximos passos devem incluir a análise formal da notícia-crime pelo ministro Mendonça, que poderá pedir diligências complementares, ouvir testemunhas ou até arquivar o pedido, caso entenda que não há elementos suficientes para abrir uma investigação formal. Também é possível que a defesa de Flávio Bolsonaro apresente novos recursos contestando aspectos processuais da decisão de Fachin, o que é comum em casos dessa natureza dentro do Supremo.
Enquanto isso, o noticiário político segue de olho em qualquer novo documento ou depoimento que venha a público, já que o caso Dark Horse se tornou um dos pontos de atenção do primeiro semestre de 2026 dentro do STF. A forma como a investigação avançar poderá influenciar tanto a imagem pública do senador quanto o debate sobre o papel do Banco Master em outras frentes de apuração que já estavam em curso antes mesmo do episódio do filme. Por ora, o que está definido é apenas quem conduzirá a análise: o desfecho, esse, ainda depende de meses de trabalho dentro do tribunal.
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